Nas
últimas semanas, a imprensa noticiou com destaque
o caso de mortes de crianças por abandono das
mães e o assassinato de duas jovens por uma concorrente
à vaga de emprego em uma empresa.
Somem-se os homicídios recentes de pais por filhos,
os homicídios diários resultantes de assaltos
a cidadãos pacíficos e, enfim, os homicídios
cometidos por policiais e bandidos nos crônicos
conflitos do tráfico de drogas e a pergunta se
torna inevitável: que valor a vida passou a ter
entre nós?
Refletir sobre o problema é, antes de tudo, entender
que perguntas desse teor surgem apenas quando não
podemos estabelecer nexos significativos entre motivos
antecedentes e mortes conseqüentes. Habitualmente,
compreendemos o que leva alguém a tirar a vida
de outrem, se a razão do ato homicida não
é trivial. Assim, crimes passionais ou assassinatos
por interesses políticos, econômicos etc.,
embora brutais e condenáveis, parecem, de certa
forma, inteligíveis, dada a força do móvel
dos crimes.
Outra coisa é o homicídio que julgamos
desproporcional ao objetivo visado pelo criminoso. Nesse
caso, a lacuna que se abre entre a razão e o
ato nos faz pensar que a relação entre
direito à vida e potencialidade assassina transborda
a racionalização possível do que
ocorreu. Falamos, então, de monstruosidade da
parte de quem mata ou de banalização do
valor da vida.
Aqui, porém, surge um obstáculo. É
relativamente fácil caracterizar a monstruosidade
de um crime. Dizemos que um crime é monstruoso
se for praticado com requintes de crueldade ou se a
vítima for ou estiver indefesa ao sofrer a agressão.
Mais difícil, em contrapartida, é definir
o que significa banalização do valor da
vida.
Duas acepções, em geral, monopolizam o
sentido da expressão.
A primeira, inspirada no conceito arendtiano de banalidade
do mal, faz da banalização sinônimo
de uso instrumental da vida. A vida, afirma-se, é
um valor absoluto. Utilizá-la como meio para
alcançar fins de poder, prestígio ou gozo
alheios ao seu possuidor é uma violação
fatal ao ideário dos direitos humanos.
A segunda filia-se às teses de alguns pensadores
dos tempos contemporâneos, e é a que me
parece mais adequada à análise dos fenômenos
discutidos. Para tais pensadores, banalizar a vida significa
não apenas instrumentalizá-la mas desatá-la
dos vínculos transcendentes que garantem seu
valor e seu sentido. Explicitando, nesta última
acepção banalizar é mais do que
instrumentalizar, pois há casos nos quais a instrumentalização
da vida para fins exteriores à pura sobrevivência
é moralmente justificável. Dispor-se a
morrer na defesa de princípios éticos,
por exemplo, raramente é algo visto como "banalização
da vida".
Ao contrário, na maioria das vezes, vemos nisso
provas de abnegação, coragem, santidade,
nobreza etc.; em suma, sinais de virtude e elevação
moral.
Banalizar a vida, portanto, quer dizer instrumentalizá-la,
mas para finalidades irrisórias. Eis, segundo
aqueles autores, o drama da cultura atual. Pois, conhecer
o valor é um processo que independe dela. A vida
nua, como pontuaram Arendt e Agamben, não é
o juiz de seu próprio valor moral.
Sua qualificação ética como bem
supremo lhe é doada de "fora", por
instâncias que lhe são transcendentes.
O transcendente não é, de forma compulsória,
o religioso, mas o que não coincide com a existência
biológica do ser humano.
Ou seja, transcendente é o que ultrapassa a "primeira
natureza" do sujeito, a que está contida
no equipamento instintivo prévio à expressão
lingüística de sua capacidade imaginativa.
Reduzida à "primeira natureza" -noção
criada por Arnold Gehlen e explorada criativamente por
Dany-Robert Dufour-, a vida se torna um mero aglomerado
de processos metabólicos em interação
com o meio.
Ora, na presente crise de transcendência, a vida
perdeu seu secular centro de gravidade valorativa, representado
pela religião, pela política e pela moral
privada familiar. Essas agências foram destronadas
pelo impacto imaginário da ciência, da
economia e da indústria do espetáculo.
Atribuir valor à vida, hoje, requer um esforço
permanente do sujeito para se deslocar de uma perspectiva
para outra.
E, ao deixarmos a órbita da hierarquia vertical
Deus-Pátria-Família, na qual a vida desdobrava
seu sentido do mais particular para o mais universal,
do mais egoísta para o mais altruísta,
caímos na vertigem dos sentidos pontuais, prescritos
pela contingência "ad hoc" do sujeito
e seu momento. A sólida pirâmide do valor
da vida se liquefez nos pequenos, provisórios
e errantes sentidos determinados pelos padrões
científico-econômicos ou pelos interesses
da cultura do espetáculo.
Desse modo, em dadas circunstâncias, o sujeito
pode sentir-se autorizado a julgar que um posto de trabalho
vale mais do que a vida do competidor, sem que isso
lhe pareça uma aberração moral.
O mesmo pode ser dito do abandono de recém-nascidos
pelas mães, do assassinato de rivais pela posse
e comercialização de drogas, do assassinato
de pais que se opõem a namoros de filhos ou de
avós que negam dinheiro ao neto para o consumo
de cocaína.
Bem
entendido, o quadro cultural é mais complexo
do que o sumário que apresentei. Manifestações
indignadas sempre acompanham episódios do gênero,
mostrando que os sujeitos reagem diante dessas vidas
em liquidação orientados pela moral tradicional.
O que me parece grave, entretanto, é que muitos
deles não notam o quanto estão comprometidos
com a moral que está na origem do que condenam
e repudiam.
Um exemplo citado por Dufour ilustra bem esse estado
de coisas. Em 1995, 500 tomadores de decisão
de alto nível político-econômico
reuniram-se para debater a governabilidade de um mundo
onde 80% da humanidade não se enquadra no regime
de mercado.
A solução proposta e aceita foi a de fornecer
"um coquetel de entretenimento estupidificante
e de alimentação suficiente que permita
a manutenção do bom humor na população
frustrada do planeta". A frieza e o cinismo da
"solução" a la personagens de
Orwell ou de Huxley mostra o que é evidente:
a desregulamentação dos mercados corre
em paralelo com uma desregulação do valor
da vida, cujos efeitos nefastos são absolutamente
desconsiderados pelos tomadores de decisão.
Freud dizia que a condição original da
civilização foi a interdição
do parricídio, do incesto e do canibalismo. Os
mentores das novas visões de mundo deveriam ouvir
cuidadosamente a advertência. Imaginar que a surrada
fórmula do "pão e circo" substitui
o respeito pela dignidade da vida humana não
é apenas esquecer que o grande Império
Romano se esfarelou assentado sobre essa insensata crença;
é agarrar-se a ondas para escapar de um naufrágio
que eles próprios estão provocando.
Jurandir
Freire Costa é psicanalista e professor de medicina
social na Universidade
do Estado do Rio de Janeiro. É autor de "O
Vestígio e a Aura" (Garamond), entre outros.
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