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Deficiente visual, a mineira
Ádria Santos se diz preparada para bater novos
recordes e trazer medalhas para o Brasil na Paraolimpíadas
de Atenas
Nesta reportagem feita pela jornalista Claudete Oliveira
e publicada na Revista
Sentidos da Editora
Áurea você irá saber porque
a atleta que é submetida periodicamente por avaliações
no CENESP-UNIFESP, Ádria Rocha dos Santos é
um dos principais ícones do esporte para pessoas
portadoras de deficiência no mundo.
Imagine-se correndo 100, 200 e 400
metros de olhos fechados, preso a alguém que
será o seu guia nesta corrida na escuridão.
Impossível fazer isso? Pode acreditar que é.
Quem é capaz dessa proeza é a velocista
Ádria Rocha dos Santos, 29 anos, deficiente visual
devido a uma doença progressiva chamada retinose
pigmentar que há dezesseis anos corre mesmo sem
enxegar. Ádria nasceu com apenas 10% da visão
e aos 20 anos deixou de enxergar definitivamente. Essa
mineira de Nanuque, interior de Minas Gerais, decidiu
ser atleta e brilhar nas pistas de atletismo desde cedo.
Começou a treinar em 1987, quando tinha 13 anos,
em Belo Horizonte, na Academia da Polícia Militar
capital do estado.
Logo foi convidada pela Associação de
Deficientes Visuais de Belo Horizonte para fazer um
teste. Foi aprovada e no mesmo ano disputou o campeonato
brasileiro de atletismo, que aconteceu em Curitiba,
conquistando três medalhas de ouro. A atleta foi
mais longe. Aos 14 anos, participou de sua primeira
paraolimpíada, disputada em Seul, em 1988. Depois
dessa, viagem vieram as de Barcelona, Atlanta e Sidney.
Foi nesta última que a velocista bateu seu próprio
recorde mundial. Veja os títulos
de Ádria.
No início da carreira, Ádria cursava o
ensino fundamental e fazia aulas de educação
física no Instituto São Rafael voltado
para educação de crianças cegas.
“Na época, eu não dava tanta importância
para o esporte. Praticava mais por lazer”, lembra.
“Hoje vejo a importância que o esporte tem
para a minha vida e foi a partir da segunda paraolimpíada
que comecei a competir para conquistar o primeiro lugar”.
Dedicada ao esporte, Ádria treina de segunda
a sábado, de cinco a seis horas por dia e folga
apenas aos domingos. Os treinos são realizados
juntamente com seu guia, Jorge Luiz de Souza, mais conhecido
como Chocolate. Com ele, a velocista faz o treino de
velocidade. Ela conta que já teve vários
guias, mas até o momento, Chocolate, que está
com ela há quatro anos, é o único
atleta que consegue acompanhá-la durante as provas.
Seu tempo médio na prova de 100 metros é
de 11s30, e o de Ádria é de 12s33.
Ádria morou no Rio de Janeiro durante sete anos
e foi lá que conheceu o guia Chocolate. Ele era
atleta do Botafogo e nunca tinha trabalhado como guia.
“Às vezes, o nervosismo toma conta dos
atletas, mas é preciso manter a calma para não
perder o controle da situação”,
diz Chocolate, lembrando que no começo ficava
com receio de correr com a velocista, mas que com o
tempo ganhou segurança e atualmente procura passar
o máximo de confiança para ela. “Me
sinto segura com ele e não sinto medo quando
entro na pista. Junto já fizemos bons resultados”,
conta Ádria.
Para que a atleta não invada a raia do adversário,
na hora da prova é preciso que corra com a mão
presa à mão do guia por uma pequena corda
que, segundo as normas da Federação Internacional
de Atletismo para Deficientes Visuais, não pode
ter distância maior do que 30 centímetros.
Nesse momento, também deve haver muita concentração
e sincronismo. “O guia são os olhos da
atleta. Como a Ádria é muito veloz, eu
tenho que ser mais veloz ainda, porque se ela desequilibrar,
tenho como recuperar nossa posição e seguir
em frente”, revela Chocolate.
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Ádria
com seu guia, Chocolate |
Classes por categoria
Os atletas com deficiência visual
competem em provas por categoria, que se divide em três
classes: T11 (totalmente cego), T12 (com 5% a 15% da
visão) e T13 (com 15% a 20% da visão).
Mas quando não se atinge o número de países
suficientes para competir – o número mínimo
aceito é quatro – misturam as categorias,
para, assim, haver mais países participando.
Por exemplo, a categoria de Ádria é T11,
na Paraolimpíada de Sidney, em 2000, ela teve
que disputar a prova com atletas da categoria T12. A
velocista lembra desse fato com orgulho. “Fiquei
muito feliz, pois competi com atletas que tinham um
mínimo de visão, mas enxergavam. Mesmo
assim eu venci a prova”, orgulha-se.
Não é apenas o atletismo que traz orgulho
e felicidada para avida de Ádria. Bárbara,
sua filha, de 13 anos, também é motivo
de muita alegria. A atleta casou-se quando tinha 15
anos e tão logo passou a dividir as atenções
para se dedicar à filha, ao marido e ao esporte.
“Quando a Bárbara era pequena, ela viajava
comigo para as competições. Só
quando não tinha jeito ficava com a minha mãe”,
revela, informando que atualmente as duas mantêm
uma relação de amizade e muita compreensão.
Quando não está treinando, Ádria
reserva um tempo para sair com a filha. Os passeios
que mais gostam de fazer é ir ao cinema, shoppings
e a parques de diversão. Bárbara gosta
muito de esporte, mas por enquanto dedica-se somente
aos estudos e sempre que há oportunidade ela
continua viajando com a mãe. Outra coisa que
as duas fazem juntas e que Ádria está
adorando, por ser diferente do que ela faz, é
aula de Dança do Ventre - com direito a ensaios
e apresentações. “Estou curtindo
muito, pois adoro música. Durante as aulas, eu
toco no corpo da professora e aprendo a fazer os movimentos.
Apoio
da família
Ádria é a filha caçula
de uma família de oito irmãos. Além
dela, outros três possuem a mesma deficiência.
Ela conta que seus pais sempre incentivou a praticar
o atletismo. “A minha família permitiu
que me tornasse independente desde cedo. Diferentemente
do que acontece com muitas outras pessoas com deficiência,
que os próprios familiares as proíbem
de sair às ruas ou mesmo de participar da sociedade”,
salienta. A deficiência não impede a atletas
de ser vaidosa. Ela adora se vestir bem, fazer as unhas,
se maquiar e arrumar cabelos. Freqüenta praia,
bares e adora jogar boliche com os amigos.
O objetivo de continuar disputando e vencer sempre fez
com que Ádria enfrentasse mais um grande desafio
no início do ano passado, quando passou por uma
cirugia para retirar líquido do joelho, pois
sentia muita dor. “Fiquei dois meses sem treinar
e tive medo de ficar fora das pistas para sempre”,
recorda. Felizmente, a atleta se recuperou e em pouco
tempo já estava correndo atrás de mais
uma medalha. Em agosto do mesmo ano disputou o IV Campeonato
Mundial de Atletismo, em Paris, o Open Paraolimpíco
de Atletismo, em São Paulo e o Para-panamericano
de Mar del Plata, na Argentina, aumentando o número
de medalhas para sua vasta coleção.
Longe
da violência
Atualmente, Ádria mora com
sua filha em Joinville, interior de Santa Catarina.
Mudou-se para a cidade há nove meses, porque
estava preocupada com a violência que cerca a
cidade do Rio de Janeiro e porque estava decidida a
continuar treinando com o técnico da Seleção
Brasileira de Esportes para Cegos, Amauri Wagner Veríssimo,
que também treina os atletas da Associação
Joinvilense de Integração dos Deficientes
Visuais (AJIDEV).
Neste primeiro semestre, Amauri avisa que os treinos
serão mais específicos, pois atleta deverá
estar preparada para disputar a Paraolimpíada
de Atenas. “O mais importante na primeira fase
do treinamento é o condicionamento físico
geral da atleta. Na segunda fase é a parte técnica,
treinos com tiros de velocidade mais forte – distâncias
curtas com velocidades máximas em intervalos
maiores”, informa o treinador que faz elogios
à velocista “Ádria é uma
atleta determinada e trabalha para alcançar o
seu objetivo”.
Ádria está empenhada em vencer mais essa
paraolimpíada. “Em Atenas, pretendo ser
melhor do que em Sidney, por isso estou treinando e
me dedicando muito. O meu objetivo é correr os
100 metros abaixo de 11 segundos e os 200 metros abaixo
de 23 segundos. Assim o tempo ficará maior para
que outras atletas façam essas marcas”,
diz. “Gosto de desafios e entro na pista para
vencer".
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