No dia 6 de janeiro, quando o mundo ainda estava
sob forte impacto da devastação causada
pelas ondas gigantes na Indonésia, a ONU divulgou
relatório preparado por seu Grupo de Trabalho
sobre Ciência Tecnologia e Inovação,
que apontou a tragédia como prova de que os países
em desenvolvimento deveriam colocar a ciência
como uma de suas prioridades. O argumento, inquestionável,
é que a existência de um sistema de alerta
em centros de pesquisa ou de equipamentos de detecção
de terremotos poderia ter evitado milhares de mortes
e bilhões de dólares em prejuízos.
O mesmo trabalho esclarece que certa prioridade
para as pesquisas científicas e tecnológicas
tem efeitos muito benéficos sobre a economia
e dá como exemplo a Malásia, que adotou
uma estratégia de desenvolvimento baseada no
apoio à ciência e, assim, cruzou a fronteira:
passou de país exportador de matéria-prima
para nação vendedora de produtos eletrônicos.
O Brasil ainda demonstra certa timidez diante
dessa verdade, apesar de sucessos evidentes em algumas
áreas. Na saúde, por exemplo, erradicamos
a poliomielite em menos de uma década e, pouco
depois, enfrentamos a epidemia da Aids com um programa
elogiado em todo o mundo e que, até o momento,
vem impedindo que a doença assuma em nosso país
a dimensão catastrófica registrada na
África portuguesa.
O financiamento dos investimentos necessários
para este upgrade científico é o grande
entrave para sua implementação. Pesquisador
da Universidade de Harvard, o professor Calestous Juma
sugere que os países ricos coloquem na balança
seus gastos com ajuda humanitária e comparem
com o custo de manter um fluxo facilitado de crédito
para que o Terceiro Mundo viabilize uma revolução
científica. Esta não é uma voz
isolada e há na Europa até quem fale na
montagem de uma espécie de novo Plano Marshall.
Venha ou não ajuda externa, as nações
em desenvolvimento precisam criar os meios para desatar
o nó do fosso tecnológico e resolver a
equação da autonomia científica.
Em nosso país, a universidade pública
tem papel indissociável dessa tarefa. O Censo
da Educação Superior, divulgado pelo MEC
no dia 10 de janeiro, mostrou que 75% dos docentes com
doutorado continuam trabalhando em instituições
públicas, apesar dos salários maiores
oferecidos pela iniciativa privada. Uma das possíveis
leituras desses números é a de que a “fuga
de cérebros” só não é
maior porque a universidade pública é
ainda aquela que garante total liberdade e melhores
condições de trabalho para desenvolvimento
da pesquisa.
Parece indiscutível, portanto, que é
na escola pública, em aliança estratégica
com a iniciativa privada e com a sociedade organizada,
que será travada a luta pela maioridade econômica
e social da nação. Assegurar a essas instituições
os recursos financeiros, materiais e humanos para que
promovam este salto, assim como acelerar a concessão
de autonomia para que melhor direcionem esses recursos
– sempre mediante a devida prestação
de contas e debate público das diretrizes –
é um passo fundamental que o Brasil deve dar
para que, em médio prazo, possa surfar na onda
do desenvolvimento.
Ulysses
Fagundes Neto é médico pediatra e reitor
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
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