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22/7/2008
- Por Fábio Reynol, de Campinas (SP)
Agência
FAPESP – “O Protocolo de Kyoto
é inócuo para deter o aquecimento global.”
A afirmação categórica é
da geógrafa italiana Teresa Isenburg, professora
do Departamento de Estudos Internacionais da Universidade
de Milão, que há décadas se debruça
sobre as relações internacionais que envolvem
o meio ambiente.
Para
ela, o documento assinado em 1997 na cidade japonesa
acabou atendendo somente os interesses do mercado financeiro,
o que pode ser percebido na União Européia,
onde os impactos do tratado deveriam ser mais sentidos.
Segundo
a cientista, a Eco 92, conferência da Organização
das Nações Unidas realizada no Rio de
Janeiro, trouxe esperanças de mudanças
reais de atitudes que não se concretizaram cinco
anos depois, em Kyoto. O panorama histórico explicaria
isso.
“Em
1992, os Estados Unidos estavam envolvidos e distraídos
com a primeira guerra do Golfo. Cinco anos depois, eles
já se apresentavam como a única potência
mundial”, disse.
Teresa
aponta que o unilateralismo norte-americano enfraqueceu
o multilateralismo “periférico” vigente
até então. Além dos Estados Unidos,
outros interesses também determinariam o destino
da reunião de Kyoto.
Com
medo da criação de uma taxação
para conter emissões de gases causadores do efeito
estufa, a iniciativa privada teria se adiantado e apresentado
a proposta do mercado mundial de carbono, conforme conta
a geógrafa.
A
vontade do empresariado teria prevalecido e gerado as
bolsas de carbono, em que são negociados créditos
referentes a esse gás. Cada tonelada de dióxido
de carbono não emitida ou seqüestrada da
atmosfera em países não-desenvolvidos
gera um crédito de carbono, comprado por empresas
dos países desenvolvidos para compensar suas
próprias emissões e, com isso, cumprir
a meta exigida pelo protocolo: reduzir as emissões
desses gases de modo que em 2012 elas sejam 5% menor
que a quantidade registrada em 1990.
“A
Itália, por exemplo, começou a investir
em projetos na China e no Marrocos, porque não
conseguiu diminuir as próprias emissões.
Pelo contrário, elas aumentaram”, exemplificou.
De
acordo com a pesquisadora o mercado de carbono se tornou
um “jeito barato de mascarar o problema sem resolvê-lo”.
“Se a Itália fosse reduzir as emissões
em seu próprio solo, gastaria 80 euros por tonelada
de dióxido de carbono, na China esse valor é
de 3 euros e a Itália não precisa parar
de poluir”, afirmou.
Participação
da sociedade
A
professora da Universidade de Milão também
criticou a ausência nas negociações
de Kyoto de propostas que previssem taxação
sobre o petróleo. “Seria muito simples,
o recolhimento das taxas formaria um fundo internacional
que financiaria as mudanças para fontes mais
limpas de energia”, apontou.
Como
exemplo da força dos tratados internacionais,
ela cita a eliminação do tráfico
de escravos em 1815, pelo Congresso de Viena, que atingiu
uma fonte de energia importante para a economia da época.
“Outro ponto negligenciado no protocolo foram
os países produtores de petróleo que mantêm
uma economia dependente do produto e não assumiram
compromissos de mudança”, disse.
Como
solução, Teresa aposta na participação
da sociedade civil, que até agora teria se mantido
à margem das discussões. No caso de Kyoto,
a resposta ao problema ambiental do aquecimento foi
entregue ao sistema financeiro que, segundo ela, não
resolve o problema e ainda procura ganhar dinheiro com
isso. “A sociedade civil tem que se levantar e
retomar elementos importantes que estão sendo
desapropriados, como água, ar e as diversas formas
de vida”, disse.
Matéria retirada de :
http://www.agencia.fapesp.br/materia/9157/especiais/carbono-como-commodity.htm
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