Quando
o tema é “Ética”, duas associações
me ocorrem de pronto: a primeira, e preocupante, é
a contínua vulgarização de conceito;
a segunda e animadora, são os efeitos extremamente
positivos para a sociedade que Ética está
produzindo ao reformar, por completo, o conceito de
poder.
Vamos à primeira, começando desde logo
com um exemplo muito atual e bastante eloqüente.
Meses atrás, o governo de um dos maiores Estados
brasileiros promulgou o seu “Código de
Conduta Ética do Servidor Público e da
Alta Administração Estadual”, do
qual extraio apenas dois dos 19 “deveres éticos”:
“São deveres éticos do servidor
público:
• Ser assíduo e freqüente ao trabalho
• Manter limpo e em perfeita ordem o local de
trabalho”
Esta é uma forma grosseira de vulgarização,
mas existem outras que, mais sutis, também levam
ao mesmo resultado. Um bom exemplo é o alarde
que muitas pessoas ou organizações fazem
em torno de sua obediência à lei. É
claro que a submissão às leis é
um dos princípios éticos mais universais,
mesmo porque não faz nenhum sentido produzir
uma infinidade de regras que ninguém leve a sério.
Mas a Ética não pode resumir-se a um de
seus princípios! Não somos éticos
porque fazemos aquilo que a lei nos obriga a fazer.
Somos éticos quando fazemos o bem que ninguém
ou lei nenhuma nos obriga.
Conhecemos ou já ouvimos falar de empresas que
praticam o chamado “capitalismo selvagem”,
isto é, desrespeitam direitos trabalhistas, fraudam
produtos, subornam autoridades ou, pior que tudo isso
junto, produzem artigos nocivos ao homem. No andar de
cima, encontramos as empresas que respeitam todos os
direitos trabalhistas, ajustam-se às disposições
legais e regulamentares, zelam pela boa qualidade dos
produtos, ainda quando estejam trazendo para o mercado
artigos nocivos à saúde e à segurança
das pessoas. Estas pretendem ser “empresas éticas”,
“cidadãs”, porque cumprem a lei.
Em minha opinião, não fazem mais do que
sua obrigação. Para que fossem realmente
“éticas”, porém, seria preciso
fazer algo mais e, definitivamente, não contribuir
para rebaixar uma qualidade de vida que, em proporção
alarmante no mundo, já é muito baixa.
Outras organizações fazem praça
de sua defesa do meio ambiente como uma conquista de
natureza ética. Também não concordo
com isso. A convivência harmônica com a
natureza é questão de sobrevivência,
não de ética. O animal que polui a água
que bebe e o ar que respira não é antiético,
é um imbecil! Estas organizações
estão vulgarizando o conceito de Ética.
Confronte-se isso com o exemplo das empresas que contribuem,
com seus produtos, para a melhoria da qualidade de vida
da população; que primam pela obediência
às leis do país e, além disso,
fazem muito mais nessa direção do que
a legislação lhes impõe. Procuram
criar um clima interno de harmonia, investem na qualificação
de seu pessoal, não só geram como distribuem
bem a riqueza, não usam seu poder econômico
para influenciar as decisões políticas,
cortam todos os custos possíveis antes de mandar
um único empregado para a rua e assim por diante.
Quando a gente faz o bem que não está
obrigado a fazer, como é o caso dessas empresas,
aí sim estamos falando de Ética, ou seja,
dos princípios e valores que inspiram nossa conduta
moral, que começa com o cumprimento de regras,
mas se sobreleva muito mais. A transparência,
vista como a disposição de uma entidade
em produzir todas as informações que sejam
de interesse de seus públicos e não apenas
aquelas a que está obrigada por lei ou regulamentação
específica, é um ótimo exemplo
de princípio ético.
Até aqui se cuidou da associação
preocupante. Tempo de passar para a animadora. Quando
analisamos a estrutura da sociedade nos últimos
séculos, particularmente a ocidental, nos damos
conta de que todas as colunas de sustentação
tinham no “poder absoluto” sua base mais
sólida. Isto era verdade com o chefe da família,
o professor, o rei, o presidente ou o gerente da empresa
e, em idêntica proporção, com os
líderes religiosos, entendendo-se como poder
absoluto a autoridade incontestável e sempre
exercida, prima facie, pelo poder em si, sem outras
considerações. Se, de um lado, esse “tecido
social” tinha a vantagem de relativa estabilidade,
de outro, contribuía fortemente para a manutenção
de uma sociedade absolutamente desequilibrada, em termos
de direitos e oportunidades.
A multiplicação dos regimes democráticos,
a pesar de todas as suas vulnerabilidades ao poder econômico,
também assinala a fragilização
do poder político absoluto, sendo raros hoje
os países em que podemos encontrar ditaduras,
pelo menos ostensivas. A transição de
empresas gerenciadas para empresas governadas, por sua
vez, deu outra feição ao poder dos presidentes
e dos gerentes, que agora devem prestar contas de seu
desempenho e sopesar interesses que vão além
da simples geração de resultados. O diagnóstico
é que o poder absoluto está em declínio
em todas as esferas da sociedade contemporânea
e a grande pergunta que fica em nossa mente é:
na ausência dele, qual será a base de sustentação
da nova sociedade?
Entra em cena, a esta altura, um elemento relativamente
novo: a comunicação imediata e universalizada,
que terá uma enorme influência no desenrolar
dos futuros acontecimentos. De fato, não se pode
admitir que, uma vez revelados os gritantes contrastes
que existem entre os vários segmentos dentro
de um país ou entre os próprios países,
o precário equilíbrio ainda existente
não fique irremediavelmente comprometido. E é
justamente aí que mora o perigo, porque a identificação
dos contrastes é o empurrãozinho que faltava
para fazer desabar a já comprometida estrutura
existente.
Com
que opções nos defrontamos? – A
primeira é a onda de descrença e desencanto,
geradora de movimentos de rebeldia, anarquia, violência
contra a vida e contra as coisas, em todas as camadas
sociais, e cujos sintomas estão visíveis
por toda a parte e em todo o mundo: gangues, drogas,
assaltos, depredações, queima de qualquer
coisa – seja índio, indigente, ônibus,
bandeira. É uma situação alarmante
porque, temos de reconhecer, as instituições
que outrora controlavam o rebanho ficaram sem mensagem.
Quase ninguém quer mais ouvir falar em “vontade
de Deus” quando o assunto é doença,
desemprego, exploração do trabalho, pobreza
ou mesmo miséria. Nessa direção,
o mundo se tornará uma grande desordem, em que
virtudes e valores não podem prosperar.
A segunda opção é a volta dos chamados
“movimentos fundamentalistas”, sejam eles
políticos ou religiosos, islâmicos ou cristãos.
As liberdades são cerceadas, o processo de lavagem
cerebral é estimulado e a maré do fanatismo
só faz subir. O exemplo mais eloqüente é
a obsessão do presidente norte-americano em fortalecer
a “direita conservadora” nos Estados Unidos
– a mesma que movimentava o Congresso para defender
uma vida, a de Terry Schiavo (então mais morta
que viva, há 15 anos) e, ao mesmo tempo dar poderes
ao presidente para bombardear cidades civis no Iraque,
matando sem dó nem piedade milhares de inocentes
para, com isso, destronar um ditador cruel e semear
lá “nosso” maravilhoso regime de
liberdade e respeito aos direitos humanos.
Felizmente, temos uma terceira opção,
a Ética, que brota quando o relacionamento com
as outras pessoas é colocado em primeiro lugar
e o conceito de poder se reveste de responsabilidade.
Sob seu domínio, todos os detentores de poder
passam a usá-la para criar o bem. Assim, o pai
usa sua autoridade para a felicidade dos filhos –
e não apenas para a punição -;
o chefe usa sua autoridade para ajudar o subordinado
a ser bem-sucedido eu seu trabalho; o professor a usa
para melhorar o desempenho dos alunos, e assim por diante.
A Ética, como pensava Aristóteles há
quase três mil anos, tem por finalidade suprema
a felicidade e o Paraíso é, figurativamente,
o domínio das pessoas felizes, que não
invejam, não agridem, não ofendem, não
destroem, reconhecem seus próprios erros e são
capazes de amar. O aspecto mais alvissareiro é
que, na implantação desta nova sociedade,
o que conta é o trabalho e o esforço de
cada um de nós, dentro de nossas possibilidades,
sem utopias, sem heroísmos, sem milagres.
Lélio
Lauretti é escritor, professor e consultor de
empresas.
Artigo
extraído da Revista Capital Aberto (ano 3, número
28, dezembro de 2005, págs. 56-7).
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