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Sem
eles não há avanço
Experiências
com animais seguem imprescindíveis, ao contrário
do que dizem ativistas
Fabrício
Marques
Revista Pesquisa Fapesp - Edição Impressa 144
- Fevereiro 2008
Entre
os feriados do Natal e do Ano-Novo, a Câmara Municipal
do Rio de Janeiro aprovou uma lei que, se for levada à
prática, obstruirá uma parte significativa da
pesquisa científica realizada na cidade por instituições
como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as universidades
federal e estadual do Rio de Janeiro e o Instituto Nacional
do Câncer (Inca). De autoria do vereador e ator Cláudio
Cavalcanti, a lei tornou ilegal o uso de animais em experiências
científicas na cidade. “Um ser humano que tortura
seres dominados e incapazes de se defender, seres que gritam
e choram de dor – seja esse ser um pesquisador ou um
psicopata – representa o rebotalho da Criação”,
justificou Cavalcanti, um destacado militante na defesa dos
direitos dos animais, em favor de seu projeto.
A comunidade acadêmica reagiu. A estratégia foi
definida na primeira semana de janeiro, numa reunião
entre o secretário de Ciência e Tecnologia do
estado do Rio, Alexandre Cardoso, e pesquisadores de várias
instituições. A bancada de deputados federais
do estado será mobilizada para ajudar a aprovar um
projeto de lei que tramita no Congresso há 12 anos
e estabelece normas para a utilização criteriosa
de animais em experimentação. A lei municipal
perderia efeito se o projeto federal sair do papel. Paralelamente,
os pesquisadores também decidiram partir para a desobediência
e ignorar a lei. “Continuaremos trabalhando com animais
de laboratório, cujos protocolos foram aprovados pelos
comitês de ética, e com animais das instituições
de pesquisa”, diz Marcelo Morales, presidente da Sociedade
Brasileira de Biofísica (SBBf) e professor da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos líderes da
reação dos cientistas.
Acontece que a interrupção do uso de animais
geraria prejuízos imediatos com repercussão
nacional, como a falta de vacinas, inclusive a de febre amarela.
O controle de qualidade dos lotes de vacinas fabricados no
Rio pela Fiocruz é feito por meio de animais de laboratório.
A inoculação em camundongos atesta a qualidade
dos antígenos antes que eles sejam aplicados nas pessoas.
Sem poder usar roedores, a distribuição de vacinas
como a de hepatite B, raiva, meningite e BCG teria de ser
interrompida, por falta de segurança. “Também
é fundamental esclarecer à população
que, se essas experiências forem proibidas na nossa
cidade, todos os nossos esforços recentes para descobrir
vacinas para a dengue, a Aids, a malária, a leishmaniose
seriam jogados literalmente no lixo”, diz Renato Cordeiro,
pesquisador do Departamento de Fisiologia e Farmacodinâmica
da Fiocruz. Marcelo Morales enumera outros prejuízos.
“Pesquisas sobre células-tronco no campo da cardiologia,
da neurologia e de moléstias pulmonares e renais, lideradas
por pesquisadores da UFRJ, e de terapias contra o câncer
realizadas pelo Inca teriam de ser interrompidas”, afirma.
O imbróglio do Rio de Janeiro preocupa pesquisadores
de todo o país porque não é um caso isolado.
Em novembro, vereadores de Florianópolis também
proibiram o uso de animais em práticas de ensino e
pesquisa no município. Em 2005, a Assembléia
Legislativa paulista aprovou uma lei que, além de coibir
os rodeios e cercear os abatedouros, proíbe o uso de
animais em pesquisa caso haja dor. A lei ainda carece de regulamentação
e sua constitucionalidade está sendo contestada no
Supremo Tribunal Federal (STF). “A pressão está
aumentando e nós não estamos conseguindo mostrar
à população o que está em jogo”,
diz João Bosco Pesquero, professor de biofísica
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor-geral
do Centro de Desenvolvimento de Modelos Experimentais para
Medicina e Biologia (Cedeme), o biotério da universidade.
“As pessoas se posicionam contra o uso de animais em
pesquisas sem perceber que isso é fundamental para
o desenvolvimento dos remédios que elas compram nas
farmácias e que permitiu avanços que aumentaram
a expectativa de vida da humanidade”, destaca Pesquero.
Walter Colli, professor do Instituto de Química da
USP, observou, em artigo assinado em outubro de 2006 na revista
Ciência Hoje em parceria com Maria Júlia Manso
Alves, que os cientistas precisam divulgar melhor a ciência
e seus métodos, a fim de não perder o apoio
da opinião pública para uma atividade essencial
para o progresso. “Até há pouco tempo,
o cientista era visto como um benfeitor da humanidade. No
entanto, no presente, ele é muitas vezes apontado como
um profissional frio e calculista, sem sentimentos. Grupos
que pensam assim estão equivocados, já que nenhum
cientista, em sã consciência, teria prazer em
maltratar animais”, escreveu Colli.
A briga que esquenta no Brasil é uma velha conhecida
de países como os Estados Unidos e a Inglaterra, onde
grupos bastante articulados costumam promover protestos ruidosos
em universidades e já chegaram a atacar fisicamente
pesquisadores envolvidos com experiências. Nesses países,
a garantia de que os animais são tratados de forma
ética vem de legislações restritivas
que, em linhas gerais, proíbem o uso fútil desses
modelos e exigem transparência dos cientistas. A lei
inglesa está em vigor desde 1876. É a experiência
internacional que inspira os pesquisadores brasileiros a defender
a aprovação de um projeto de lei apresentado
em 1995 pelo então deputado e médico Sérgio
Arouca (1941-2003). A chamada Lei Arouca estabelece, por exemplo,
que só se deve utilizar animais de laboratório
caso não haja outro meio de testar a hipótese
da pesquisa e que a utilização dos modelos deve
ser monitorada por comitês de ética específicos
para essa finalidade formados em cada instituição.
Todo o sistema seria coordenado por um conselho nacional,
composto por cientistas e representantes de ministérios,
encarregado de formular normas relativas à utilização
ética de animais e zelar pelo seu cumprimento.
A aprovação da lei, diga-se, pouco afetaria
a rotina das principais universidades do país, que
nos últimos dez anos já se adaptaram aos ditames
do projeto de Arouca. Mas teria o dom de garantir a disseminação
das normas em instituições de pesquisa de regiões
mais pobres, que nem sempre dispõem de condições
financeiras de manter biotérios adequadamente. Para
Marcelo Morales, presidente da SBBf, a criação
de um marco legal é essencial e sua ausência
gera uma situação de incerteza, que causa constrangimento
a pesquisadores. “Mesmo fazendo experimentos com protocolos
aprovados na comissão de ética da UFRJ, Leopoldo
de Meis, um dos mais respeitados cientistas do Brasil, por
exemplo, foi acusado de maus-tratos a animais e acabou intimado
a depor na delegacia”, contou. De Meis, que é
professor do Instituto de Bioquímica Médica
da UFRJ, foi acusado em dezembro de 2006 de torturar animais,
expondo-os a um frio de 4ºC, com base numa fotografia
tirada em seu laboratório pelo telefone celular de
uma ativista. Na delegacia, o cientista explicou que a maior
parte dos coelhos do mundo vive naturalmente nessa temperatura
e foi liberado.
Proibido fumar - As entidades antivivisseccionistas
costumam esgrimir um conjunto articulado de argumentos, que
tem conquistado corações e mentes de políticos
e eleitores. O principal deles dá conta de que os bichos
são vítimas de maus-tratos e de tortura. “Afirmo
que os animais de laboratório vivem em condições
de alimentação, de manutenção
e de conforto melhores do que boa parte da população
brasileira. E isso ocorre porque é essencial ter animais
em boas condições de saúde para as experiências
científicas”, diz Luiz Eugênio Mello, professor
de fisiologia da Unifesp e presidente da Federação
das Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe). As regras
seguidas pelo biotério da Unifesp, que fornece a Luiz
Eugênio animais para suas pesquisas sobre fisiologia
e o estudo da epilepsia, seguem minúcias como o tempo
máximo (12 horas) que se pode impor de jejum a um animal
antes que ele seja operado e a adoção de regime
de ventilação que permita de 15 a 20 trocas
totais de ar por hora no ambiente em que vivem os bichos.
É terminantemente proibido fumar no biotério.
Quanto à idéia da tortura, Luiz Eugênio
lembra que os comitês de ética de pesquisa instalados
desde os anos 1990 em todas as universidades e instituições
de pesquisa já realizam um monitoramento ético
das experiências com animais, com exigências em
relação ao uso de anestésicos e de analgésicos
e da eutanásia sem dor depois da sua utilização.
Agências como a FAPESP e o CNPq também fazem
exigências sobre o uso de animais para fomentar projetos.
“Evidentemente, se eu estou testando um medicamento
para dor ou para ansiedade, não conseguirei avaliar
a eficácia sem submeter o animal à dor ou a
uma situação de ansiedade. Mas esse tipo de
desconforto a que o animal é submetido é sempre
controlado e quan-tificado, caso contrário não
é possível mensurar o resultado da experiência”,
afirma Luiz Eugênio.
Outro argumento corrente dos defensores dos direitos dos bichos
é que o uso de animais se tornou obsoleto com o surgimento
de alternativas para as experiências. “De fato,
existem alternativas, mas nem todas são válidas
e podem ser utilizadas. À medida que as alternativas
forem desenvolvidas e validadas, os pesquisadores serão
os primeiros a utilizá-las. O importante para o pesquisador
é a validade do seu resultado, sendo ele produzido
com animais ou com técnicas alternativas”, diz
Marcel Frajblat, professor da Universidade do Vale do Itajaí
(Univali), em Itajaí (SC), e presidente do Colégio
Brasileiro de Experimentação Animal (Cobea).
“No caso dos medicamentos, eles têm de passar
por pelo menos três espécies animais antes de
serem comercializados. Não existem alternativas, fora
do uso de animais, para testar um medicamento antes de ele
ser encaminhado para testes pré-clínicos em
seres humanos”, diz Frajblat. Milton de Arruda Martins,
professor titular da clínica médica da FMUSP,
dá exemplos: “Medicamentos contra a Aids e contra
o câncer têm de ser bastante potentes e a experimentação
animal vem sendo fundamental para avaliar tanto os efeitos
benéficos como os colaterais”. Da mesma forma,
diz Martins, o desenvolvimento de vacinas exige, a certa altura,
que o antígeno seja aplicado num organismo vivo para
averiguar sua capacidade de produzir anticorpos. “Temos
duas opções: testá-los em animais ou
aplicá-los diretamente em seres humanos. Não
há uma terceira opção e a sociedade precisa
saber disso”, afirma.
É certo que o argumento da obsolescência de aplicações
dos modelos animais baseia-se em premissas que fazem sentido.
De fato, certos usos caíram em desuso, alguns por razões
éticas, e, sim, surgiram opções capazes
de aposentar o uso de animais em vários tipos de experiência.
Mas os avanços científicos, com as novas perguntas
e desafios que impõem aos pesquisadores, fazem brotar
novas aplicações de modelos animais a cada dia
– e não há razões para acreditar
que isso vá mudar.
Nocaute genético - Regina P. Markus,
professora do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências
da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Farmacologia
e Terapêutica Experimental (SBFTE), dá um exemplo
de uso obsoleto. Ela lembra que, na década de 1930,
foi desenvolvida uma técnica para diagnosticar gravidez:
aplicava-se urina de uma mulher em ratas e avaliava-se se
seu útero se dilatava, efeito da tempestade hormonal
feminina que se segue à fecundação. “É
evidente que hoje não faria nenhum sentido fazer um
teste de gravidez dessa forma, mas foi utilizando essa técnica
que se descobriu o modo atual de fazer o diagnóstico.”
Durante as décadas de 1980 e 1990, a experimentação
em animais cedeu à biologia molecular parte do espaço
que ocupava. “O estudo de genes e proteínas valendo-se
de modelos celulares foi tão disseminado que os estudos
fisiológicos envolvendo animais de experimentação
perderam força”, escreveu Antonio Bianco, professor
associado de medicina da Universidade Harvard, em sua
coluna no site de Pesquisa FAPESP.
Nos últimos anos, contudo, aconteceu uma notável
reviravolta. A possibilidade de criar linhagens de animais
com inativação ou indução de um
ou mais genes deu um novo impulso à pesquisa com animais,
como destacou Bianco. Os geneticistas norte-americanos Mario
Capecchi e Oliver Smithies e o inglês Martin J. Evans
ganharam o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de
2007 pela criação de uma tecnologia, conhecida
como nocaute genético, que permite inativar certos
genes e monitorar os efeitos dessa ação, o que
leva à construção do quadro do desenvolvimento
da doença. Até o momento, mais de 10 mil genes
de ratos foram “nocauteados”, e muitos outros
devem passar pelo mesmo processo em um futuro próximo.
O resultado são mais de 500 modelos de doenças
humanas, incluindo problemas cardiovasculares e neurodegenerativos,
diabetes e câncer. “A evolução do
conhecimento na genômica fez explodir o uso de camundongos
como ferramenta de pesquisa”, diz José Eduardo
Krieger, professor associado do Departamento de Clínica
Médica da FMUSP e pesquisador do Instituto do Coração,
de São Paulo.
Alma
racional - Os primeiros relatos conhecidos de uso
de animais em experimentações remontam há
mais de 2 mil anos, quando Hipócrates (450 a.C.) realizou
estudos que relacionavam órgãos humanos doentes
com os de animais para fins didáticos. As investigações
com modelos animais ganharam fôlego a partir do século
XVI. Em 1638, William Harvey publicou um livro em que expôs
estudos experimentais sobre a fisiologia da circulação
sangüínea feitos em 80 espécies diferentes.
Atribui-se ao filósofo francês René Descartes
(1596-1650) um aval às experiências, ao alegar
que os homens eram dotados de uma alma racional e os animais,
não. Já o inglês Jeremy Bentham (1748-1832)
foi um dos primeiros a apresentar um contraponto à
visão cartesiana, ao formular questionamentos éticos
acerca do sofrimento imposto aos animais. “Provavelmente,
a partir das idéias de Bentham aparecem as primeiras
ações com relação à proteção
aos animais no século XIX”, escreveram Marcia
Raymundo e José Roberto Goldim, pesquisadores do Hospital
de Clínicas de Porto Alegre, autores do artigo “Ética
da pesquisa em modelos animais”.
O advento das primeiras sociedades de proteção
aos animais no século XIX já mobilizou cientistas.
Em 1865, o médico Claude Bernard justifica a utilização
dos animais de forma veemente em seu livro Uma introdução
do estudo da medicina experimental. “Nós temos
o direito de fazer experimentos animais e vivissecção?
Eu penso que temos este direito, total e absolutamente. Seria
estranho se reconhecêssemos o direito de usar animais
para serviços caseiros, para comida, e proibir o seu
uso para a instrução em uma das ciências
mais úteis para a humanidade. A ciência da vida
pode ser estabelecida somente através de experimentos
e nós podemos salvar seres vivos da morte somente após
sacrificar outros”, escreveu Bernard.
Na avaliação de Luiz Eugênio Mello, da
Fesbe, a defesa do direito dos animais ganhou articulação
no século XVIII com o advento do conceito do “bom
selvagem”, cunhado por Jean-Jacques Rousseau em alusão
às qualidades superiores que, a seu ver, tinham os
indivíduos que viviam no estado da natureza. “O
sentimento de que o homem é um corruptor da natureza
surgiu na Revolução Industrial e não
deixou de existir”, diz. “Ele frutificou na defesa
dos direitos dos animais, no discurso dos ecologistas e, mais
recentemente, na oposição aos transgênicos.
Como utopia é bonito e, sem dúvida, rende belos
roteiros aos estúdios Walt Disney. Mas o mundo real
é bem diferente. Muitas pessoas gostam de comer carne.
E a pesquisa científica, que aumentou a expectativa
de vida da humanidade e viabilizou remédios e tratamentos,
foi totalmente calcada em experimentos com modelos animais”,
diz. “É uma utopia ignorar que dependemos de
nos alimentar de vegetais e de outros animais para sobreviver.
Para você existir, alguma outra coisa tem que deixar
de existir. Esse é um fato da natureza”, afirma
Luiz Eugênio. Marcel Frajblat, presidente do Cobea,
aponta uma questão de fundo: a sociedade, incluindo
os vereadores do Rio e de Florianópolis, tem uma percepção
errada de como a ciência é produzida, associando
o uso de animais em pesquisa a maus-tratos e não percebendo
o benefício deste uso no seu dia-a-dia. “E muitos
dos que militam contra o uso de animais pensam mais em si
e nos animais do que nas pessoas que precisam de medicamentos
e terapias desenvolvidos com a ajuda de modelos animais”,
afirma Frajblat.
Beneficiários - O antivivisseccionismo
recebeu uma injeção de ânimo a partir
dos anos 1970, com o livro Libertação animal,
do australiano Peter Singer, professor da Universidade Princeton,
nos Estados Unidos, que, entre outras denúncias, chocou
ao mostrar os testes de toxicidade de cosméticos feitos
em olhos de coelhos. Singer é um dos formuladores do
termo “especismo”, discriminação
que pressupõe que os interesses de um indivíduo
são de menor importância pelo mero fato de se
pertencer a uma determinada espécie. Neste aspecto,
curiosamente, há espaço para convergência.
A idéia de que remédios, tratamentos e técnicas
cirúrgicas devem ser testados primeiro em animais para
só depois serem experimentados em seres humanos baseia-se,
sem dúvida, na concepção da primazia
humana. Mas os cientistas rejeitam a idéia de que há
vencedores e vencidos. “A experimentação
com modelos animais ajudou a desenvolver tratamentos, medicamentos
e procedimentos para a veterinária e hoje os animais
também são beneficiários diretos disso”,
diz Luiz Francisco Poli de Figueiredo, professor titular de
técnica cirúrgica da Faculdade de Medicina da
USP.
Não se imagine que o sacrifício de animais de
laboratório é assunto bem resolvido entre os
pesquisadores. A geneticista Mayana Zatz, pró-reitora
de Pesquisa da USP, é uma defensora do uso dos animais
em experiências científicas. “Sem eles,
toda a pesquisa que está sendo feita com células-tronco
se tornaria inviável. Não dá para aplicar
em humanos sem primeiro testar exaustivamente em modelos animais”,
ela afirma. Mayana, contudo, prefere delegar a seus assistentes
e orientandos a tarefa de sacrificar animais. “Eu olho
de longe. Não gosto de matar bicho, da mesma forma
que não como carne. Mas não é porque
eu tenho dificuldade de trabalhar com modelo animal que vou
esquecer que eles são absolutamente necessários
para a pesquisa”, afirma. A professora Regina P. Markus,
do Instituto de Biociências da USP, já se acostumou
a administrar esse tipo de problema. “Nunca vi nenhuma
dificuldade no uso de animais por alunos de medicina. Eles
sabem claramente que isso tem uma justificativa, que é
o avanço de terapias ou cirurgias. Isso já não
ocorre com vários estudantes de biologia. É
comum haver, entre eles, jovens que querem seguir carreira
com viés conservacionista e têm dificuldade em
trabalhar com animais. Já vivi situações
no laboratório em que eu própria tive de sacrificar
animais, porque nenhum estudante se habilitou para a tarefa”,
con- ta. Regina diz que o importante, em situações
como essa, é não fazer julgamentos. “Trata-se
de uma questão de foro íntimo, que precisa ser
respeitada. O importante é manter o consenso de que
o uso dos animais é fundamental para a pesquisa”,
destaca a professora.
A favor dos defensores dos direitos dos animais, deve-se dizer
que sua mobilização teve um papel na construção
do conjunto de procedimentos éticos em experimentação.
Um episódio ocorrido em 1988 ilustra essa influência.
Na ocasião, o então prefeito de São Paulo,
Jânio Quadros, proibiu o Centro de Zoonoses do município
de fornecer cães recolhidos das ruas para experiências
em universidades e institutos de pesquisa. Jânio cedeu
aos apelos de sua mulher, Eloá, que adorava cachorrinhos
e considerava cruel o destino que os animais de rua tinham
nas mãos dos pesquisadores. A reação
dos pesquisadores foi forte e a prefeitura acabou cedendo.
O tempo passou e o que era tido como imprescindível
nos anos 1980 tornou-se condenável segundo os critérios
éticos atuais. Boa parte daqueles cães de rua
era usada em experiências de sala de aula, nas quais
se treinava, por exemplo, a habilidade de futuros médicos
em usar o bisturi ou fazer suturas. “Atualmente a utilização
de animais para demonstração em aulas está
bastante reduzida e foi sendo substituída por outras
técnicas. A pressão das entidades dos direitos
dos animais e de muitos alunos mudou esse costume”,
diz Mirian Ghiraldini Franco, professora da Unifesp e coordenadora
do Cedeme. Também ajudou a erradicar o uso de cães
de rua nas instituições paulistanas o fato de
os animais terem saúde precária, podendo contaminar
pesquisadores e alunos. “Hoje só se faz pesquisa
com animais que apresentem condições ideais
de saúde. Revistas internacionais não publicam
artigos envolvendo experiências com animais criados
precariamente”, afirma Mirian.
Ralos
à prova de fugas - A necessidade de criar
animais de qualidade para pesquisa provocou uma transformação
nos biotérios. O novo Centro de Bioterismo da FMUSP
foi inaugurado em 2002 com investimento de R$ 5 milhões.
O edifício teve de ser adaptado para que se encaixasse
nos padrões da International Council for Laboratory
Animal Science (Iclas) e da Association for Assessment and
Accreditation of Laboratory Animal Care International (Aaalac),
duas entidades que regulam esse tipo de centro no mundo. Foram
desenvolvidos em parceria com indústrias de material
de construção ralos à prova de fugas,
tinta resistente aos produtos de limpeza, portas de aço
com fechamento pneumático, sistemas de ar condicionado,
entre outros. “Para se produzirem animais mais adequados
para pesquisas, com variabilidade genética menor e
criados em condições ambientais e sanitárias
controladas, foi necessário investir em grandes biotérios,
que são estruturas caras de se manter”, afirma
Roger Chammas, professor associado e diretor do Centro de
Bioterismo da FMUSP.
A racionalização do uso de animais segue o modelo
proposto em 1959 pelo zoologista William Russell e pelo microbiologista
Rex Burch, que estabeleceram os três erres da pesquisa
em animais: Replace, Reduce e Refine, na qual a utilização
é permitida, mas deve ser reduzida ao mínimo
e substituída sempre que possível por outras
técnicas. No ano passado, o biotério da Unifesp,
que fornece 2 mil ratos e 5 mil camundongos por mês,
deu um passo importante rumo à racionalização.
Passou a cobrar pelos animais de laboratório –
os valores variam de R$ 5 a R$ 50 (camundongos transgênicos
são os mais caros). A medida fez com que a demanda
caísse 50%, numa evidência de que o uso, até
então, era exagerado. Na Faculdade de Medicina da USP,
os cães foram abolidos dos experimentos e o treinamento
de estudantes em técnicas cirúrgicas, por exemplo,
é realizado em animais que foram utilizados em pesquisas
relevantes e seriam descartados, sempre com uso de anestesia
e analgesia. O aprendizado de técnicas de sutura e
de implante de enxertos, que antes usava cães vivos,
hoje é feito em segmentos de animais já sacrificados
– e até em línguas de boi compradas no
açougue. Colaborou para a redução do
uso de animais na FMUSP a criação de novas técnicas
para treinamento de estudantes, como um simulador de cirurgias
por laparoscopia, aquelas feitas por meio de uma tela de computador,
que submete o estudante a situações reais, além
de ratos de plástico e de manequins nos quais é
possível reproduzir algumas situações
reais. “São recursos que substituem o uso de
animais com eficiência na fase inicial do treinamento,
assim como preparam muito melhor o estudante e o profissional
para uma prática clínica adequada”, diz
Luiz Francisco Poli de Figueiredo, professor titular de técnica
cirúrgica da Faculdade de Medicina da USP.
Primatas - A racionalização
obedece a demandas econômicas. Hoje nove em cada dez
experiências envolvem ratos e cobaias, muito mais fáceis
de manusear e baratos de manter, enquanto diminuiu o uso de
cachorros e gatos. Cresce a aplicação do zebrafish,
um peixinho de aquário conhecido como paulistinha,
que se reproduz rapidamente e tem muitos genes semelhantes
aos dos seres humanos. “O uso ainda é incipiente,
mas o modelo é bastante promissor. É um vertebrado
translúcido, que pode ser facilmente observado, é
prolífico em produzir embriões e tem um custo
de manutenção baixo”, afirma o pesquisador
José Xavier Neto, coordenador do Núcleo Multiusuário
de Animais Transgênicos da FMUSP e pesquisador do InCor.
A utilização de primatas, que sempre foi controverso
pela semelhança com os homens, segue polêmica
e difícil. Mas os macacos ainda são considerados
indispensáveis em pesquisas como a de vacinas contra
a Aids, pela semelhança com o organismo humano, e eles
vêm sendo cada vez mais requisitados na pesquisa em
neurociên-cia. “Nunca tive dificuldade em conseguir
autorização para utilizar macacos nos Estados
Unidos e acho a decisão da Câmara Municipal do
Rio de Janeiro um absurdo, um retrocesso e uma grandíssima
bobagem”, resume Miguel Nicolelis, professor brasileiro
da Universidade Duke, autor de pesquisas pioneiras envolvendo
a comunicação entre o cérebro de macacos
e próteses robóticas.
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